Após intervenção, Bahia viveu conquistas em todas as temporadas: ‘Democracia fez bem’

Com o título do Campeonato Baiano no último domingo (8), o Bahia entrou no quinto ano seguido em que conquista algo importante na temporada.

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Foto: Max Haack/ Ag. Haack/ Bahia Notícias

Coincidentemente, as comemorações consecutivas do Esquadrão começaram em 2014 após o processo de intervenção, iniciado no ano anterior, que trouxe a democracia para o clube.

O primeiro caneco levantado foi o do estadual. No ano seguinte, o Tricolor revalidou o título do estado. Em 2016, o grito de campeão ficou preso na garganta, porém o time alcançou um objetivo tão importante quanto um campeonato estadual, que foi o acesso à Série A. No ano passado, o clube voltou a ser o maior da região ao levantar o caneco da Copa do Nordeste, torneio que não vencia desde 2002. Curiosamente esta foi a última vez que o time terminou no topo de uma competição antes de enfrentar um jejum de 10 anos.

“Por muitos anos se dizia no futebol brasileiro que democracia era um risco, que os sócios que elegem diretamente o presidente poderiam colocar o clube em risco por eleger alguém despreparado. O Bahia está mostrando que a história é o inverso. A democracia fez muito bem, tem reflexos na gestão, na qualidade dentro de campo, de forma que só nos resta reforçar a força democrática do clube e continuar trabalhando para que isso tenha reflexo em campo”, afirmou o atual presidente Guilherme Bellintani, um dia após o 47° título estadual do Bahia, em entrevista ao Bahia Notícias.

Na temporada de 2018, o Bahia ainda disputa quatro competições. A equipe segue viva na Copa do Nordeste e vai encarar o Botafogo-PB pelas quartas de final do torneio. As datas das duas partidas ainda não foram definidas. Na última quarta-feira (11), o Esquadrão perdeu para o Blooming-BOL, por 1 a 0, no jogo de ida da primeira fase da Copa Sul-Americana. O duelo de volta será no dia 8 de maio, uma terça, na Arena Fonte Nova. O time precisa vencer por dois gols de diferença para avançar de fase. Pela Copa do Brasil, o Bahia entrará na próxima etapa, as oitavas de final. O adversário sairá por sorteio, após a quarta fase, que deverá ser concluída no próximo dia 19. Já no Campeonato Brasileiro, o Tricolor faz a sua estreia neste domingo (15), às 16h, justamente contra o Internacional e no Beira-Rio. O adversário e o palco são os mesmos do bicampeonato brasileiro de 1988.

Democracia
A intervenção foi provocada por uma ação protocolada pelo ex-conselheiro do Bahia, Jorge Maia. Para ele, a reeleição de MGF, no ano de 2011, desrespeitava o estatuto. No dia 9 de julho de 2013, a desembargadora Lisbete Maria de Almeida julgou como improcedente a medida cautelar impetrada pelos advogados do então presidente do Bahia, Marcelo Guimarães Filho, que o mantinha no cargo desde março de 2012. O objetivo do mandatário era barrar a autorização de intervenção judicial no clube. A decisão da desembargadora afastava MGF do cargo. Ela nomeou o advogado Carlos Rátis como interventor do clube, junto com uma comissão formada por Cyrano Vianna, Danilo Tavares e Jaime Barreiros.

Carlos Rátis foi o interventor do Bahia | Foto: Cláudia Cardozo/ Bahia Notícias

Quando chegou ao Bahia, Rátis disse ter encontrado uma situação caótica. “No próprio processo que foi destacado, o clube encontrava-se em dívidas nos mais diversos setores. Todos os dias, recebíamos telefonemas de credores dizendo que iriam suspender os serviços. Por exemplo, o clube não tinha dinheiro para pagar a concentração dos jogadores, faltava até para o registro dos atletas na CBF. Além de buscar a realização da assembleia das eleições, nos deparávamos todos os dias com problemas graves do clube”, lembrou em entrevista ao Bahia Notícias.

A primeira medida de Rátis para começar a tirar o Bahia do buraco foi diminuir de R$ 300 para R$ 10 para o torcedor se associar. Mais de 14 mil pessoas se tornaram sócias do clube, realizando um sonho antigo dos torcedores que era participar da vida social do Bahia, com direito a voto e eleições diretas. Coisa que Marcelo Guimarães Filho teria dificultado para que não fosse concretizado. Com cerca de dois meses de intervenção, Rátis colocou em votação a mudança de estatuto dando o novo poder aos sócios-torcedores. O pleito aconteceu no dia 17 de agosto de 2013 e 3.089 sócios aprovaram o novo estatuto contra seis que disseram não e 25 que anularam a escolha. Dentre as propostas, além do voto direto para presidente, estavam a eleição do mandato tampão do primeiro cartola eleito pós-intervenção; redução da maioridade eleitoral de 18 para 16 anos; redução do conselho de 300 para 100 nomes, além de eleição proporcional; e adoção da Lei de Ficha Limpa para os candidatos presidenciais.

“Nós da comissão só conseguimos fazer esse trabalho graças ao apoio diário e constante da torcida. Nós recebíamos mensagens, e-mails, telefonemas, por onde a gente passava a torcida do Bahia sempre estava do nosso lado, nos dando força, incentivando”, falou.  “O que é importante enfatizar é o modelo de governança corporativa do Bahia. Ele permite uma fiscalização constante do legislativo, que é o Conselho Deliberativo. Quando houve a intervenção e o estatuto foi alterado, os membros do Conselho são eleitos proporcionalmente à obtenção de votos por chapa. Então você tem um executivo que não necessariamente vai estar com a maioria do legislativo. Você tem um fiscal diuturno no seu trabalho”, destacou. “Lembro na época que muitos clubes depois passaram a discutir como não se permitir um legislativo que seja todo abençoando a diretoria. Você tem que ter um legislativo combativo”, completou.

A primeira eleição direta do Bahia aconteceu no simbólico dia 7 de setembro daquele mesmo ano. Fernando Schmidt foi eleito com 3.300 (67%), contra 1.164 (22%) de Antônio Tillemont e 468 (9%) de Rui Cordeiro. Ele cumpriu o restante do mandato de MGF, que terminaria no fim de 2014. O segundo mandatário eleito pelos torcedores do Bahia foi Marcelo Sant’Ana que recebeu 1.755 votos, 41% do total, vencendo Antonio Tillemont, que novamente ficou em segundo com 1.403 votos (33%). Os candidatos Olavo Filho (726 votos), Marco Costa (243), Flávio Alexandre (14) e Nelsival Menezes (14) completaram a corrida presidencial. O percentual de votos em branco foi de 0,51% (21 votos), e o de nulos foi 0,12% (5 votos). Sant’Ana ocupou o cargo de 2015 até o final de 2017. Por último, Bellintani foi o terceiro presidente eleito em dezembro do ano passado, ao receber 3.626 votos (81,48%), seguido por Abílio Freire com 411 votos (9,24%), Fernando Jorge Carneiro com 391 (8,79%) e por Flávio Alexandre, o Binha, com 22 (0,49%).

Bellintani foi o último presidente eleito | Foto: Max Haack/ Ag. Haack/ Bahia Notícias

Para Rátis o programa sócio-torcedor é o mais importante para o clube. “Gostaria que cada vez mais torcedores se associassem ao clube. Na minha casa, com muito orgulho, eu, minha esposa e minhas duas filhas somos sócios do Bahia”, destacou, finalizando que não tem interesse em ser presidente e nem fazer parte do Conselho, mas que participa da vida do clube como sócio e sempre à disposição de ajudar.

Na época em que foi nomeado interventor, Rátis era torcedor do Atlético-MG. “Continuo com apreço ao Atlético-MG, mas sem sombras de dúvida, hoje em dia uma das minhas maiores alegrias são ver os triunfos do Bahia”, finalizou.

Situação financeira
Durante a intervenção no clube, em 2013, Carlos Rátis fez um levantamento das contas do clube, constando a complicada situação financeira. Na época, ele declarou que o primeiro presidente pós-intervenção teria muitas dificuldades nessa área. Cinco anos depois, de acordo com Bellintani, a dívida do Bahia é uma preocupação da diretoria. “Estamos procurando a reestruturação econômica do clube, que tem muita dívida para pagar ainda, temos um desafio de médio prazo. É uma dívida de mais de R$ 200 milhões. Mas com muita responsabilidade, cuidado e zelo pelas coisas do Bahia a gente vai conseguir superar”, disse.

Bellintani projeta que grande parte dessa dívida seja quitada em até sete anos. “A gestão de Marcelo [Sant’Ana] e Pedro [Henriques] foi muito positiva no equilíbrio dessa dívida, em encontrar o tamanho dessa dívida, mas estamos muito distantes para termos um pagamento pleno dela. Ainda não pagamos sequer a metade dela. A dívida ainda assombra o dia-a-dia do clube. Marcelo e Pedro deram um primeiro passo de organização da dívida, mas cabe a nós dar sequência a isso, intensificando ainda mais a responsabilidade financeira. A gente imagina que o Bahia ainda vai demorar seis ou sete anos para ter o pagamento da dívida, não integral, mas que se consiga colocar o clube num patamar aproximado de outros grandes clubes do futebol brasileiro economicamente falando”, projetou.

Fim do processo

No dia 6 de março deste ano, o caso da intervenção do Bahia foi arquivado a pedido do juiz Paulo Albiani. O processo foi determinado trânsito em julgado, o que significa que não se pode mais recorrer. No bom português, o caso está encerrado.

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