Tragédia da Fonte Nova completa 10 anos

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Sete mortes da Fonte Nova impunes 10 anos depois.

Sobrevivente da tragédia que matou sete pessoas na Fonte Nova, há exatos dez anos, Jader Landerson Azevedo, de 27 anos, decidiu vencer o medo de acompanhar uma partida na arquibancada. O estádio foi implodido e reconstruído. Passou a ser chamado de arena, sem deixar de provocar lembranças difíceis para ele, que voltou a assistir aos jogos.Neste domingo,(26), vai ao estádio torcer pelo Bahia no jogo contra a Chapecoense. Jader contou estar superando o incômodo que o acompanhava desde a tragédia, ocorrida em 25 de novembro de 2007, e trouxe várias cenas à sua mente em visita à Fonte na quarta-feira, acompanhado da reportagem do A Tarde.

“Naquele dia do jogo, a gente comprou os ingressos, depois vendeu, comprou de novo, vendeu e depois comprou. Vendeu, desistiu, depois comprou de novo. Parecia que algo estava dizendo que não era para ir”, recordou. Ele foi ao estádio com dois amigos, Jadson Celestino Araújo Silva e Joselito Lima Jr.

Ambos perderam a vida na tragédia que, além de ferir 30 pessoas, vitimou Márcia Santos Cruz, Milena Vasquez Palmeira, Djalma Lima Santos, Anísio Marques Neto e Nídia Andrade Santos. Jader Landerson, Denis de Jesus e Patrícia Vasquez Palmeira se salvaram também caíram do vão que se abriu na arquibancada, mas acabaram se salvando.

“Eu caí em uma lança no anel do meio e a minha perna direita ficou presa. Depois o meu corpo se soltou, mas o impacto diminuiu. Acho que isso salvou minha vida”, contou Jader, que afirmou só lembrar de detalhes ajudado pelas imagens vistas na tevê, pois sua memória não guarda muita coisa do acidente.

Ele retornou ao estádio após dez anos para acompanhar Bahia 2×2 Atlético-MG, há duas semanas. O irmão Tiago, 18 anos, e o sobrinho Fabrício, 16, o acompanharam. “Eu não quis ficar no mesmo lugar. Preferi o setor norte (à direita do local do acidente)”, revelou Jader, que vai ser pai. A previsão é que a sua mulher, Maira Campos, de 24 anos, dê à luz ao bebê Zaion até o dia 22 de dezembro. “Zaion vai ser Bahia também”, afirmou, lembrando que sua família é tricolor.

Para o duelo deste domingo, o Bahia ofereceu-lhe assento em camarote com direito a uma camisa. Adversário no jogo, a Chapecoense viveu grande tragédia no ano passado, com a queda do avião em que estavam seus atletas.

Haverá um minuto de silêncio, solicitado pelo Bahia, em respeito também às vítimas do time catarinense. O telão da arena exibirá um vídeo em homenagem às vítimas. “Mas agora, contra a Chapecoense, eu vou ficar no mesmo lugar onde ocorreu o acidente para perder esse medo”, decidiu Jader. Da época da tragédia até agora, o rapaz engordou 28 kg, tendo chegado a 98 kg.

O peso agrava os problemas deixados pelas sequelas da queda. Jader lesionou três vértebras e perdeu tecido da perna direita. “Não tenho condição de trabalhar. Se ficar muito tempo em pé a minha coluna dói. Se ficar um dia todo andando, no outro dia a perna fica doendo muito”, explicou.

Indenização

O irmão, Tiago, torce para a situação ser revertida. “É triste. Tem dez anos do acidente e nada de resolver, darem uma pensão para ele”, lamentou.

Jader relatou que mantém contato nas redes sociais com outras vítimas da tragédia. “A gente fez um grupo só nosso juntando todos os familiares, mas eles não querem dar entrevista”, afirmou, acrescentando que a insatisfação é grande no grupo, por não estarem mais recebendo ajuda financeira das autoridades.

“Ficaram resolvendo se a gente aposenta, se encosta. Ajudaram nos primeiros meses, com o acidente recente, dando médico, ambulância. Fora isso, mais nada”, lamentou.

Nas contas de Jader, o apoio durou cerca de oito meses, depois os seus parentes assumiram. “É problema avós e pais ficarem me ajudando, eu já um homem de 27 anos. Procuro emprego, mas ninguém me emprega por causa dos problemas que tenho”, disse.

Sem perder a esperança de ser indenizado, o rapaz sugere ao Bahia um jogo beneficente com parte da renda revertida para as famílias e sobreviventes. O clube respondeu pela assessoria de imprensa que o caso é para ser estudado.

Enquanto isso, vai vendendo lanches no trailer que tem em Cajazeiras 6. O objetivo do momento é juntar dinheiro para o enxoval do primeiro filho. “O que eu recebesse do Bahia poderia comprar um carro para rebocar o trailer até Cajazeiras 10, onde o movimento é melhor”, planejou o rapaz.

MP

Ainda sobre a atuação do MP-BA, a assessoria de imprensa informou que a instituição atuou na esfera cível e criminal, com o ajuizamento de ações civis públicas, oferecimento de denúncia e interposição de recursos, cabendo ao Poder Judiciário resposta às demandas. Entre as ações citadas uma de 6 de dezembro de 2007, contra a CBF, FBF, o Bahia e a Polícia Militar foi ajuizada por o MP entender que as entidades tinham conhecimento da situação precária da Fonte Nova e de forma negligente permitiram a realização de partidas no estádio.

De acordo com a promotora de Justiça Joseane Suzart, autora das duas ações, as mesmas não foram julgadas pelo Poder Judiciário, mesmo após 25 petições pugnando pelo julgamento do feito. O MP lamenta que, transcorrida uma década do episódio que ceifou sete vidas e trouxe sequelas irreversíveis para diversas famílias, a sociedade não tenha obtido a resposta esperada.

Confira íntegra da nota do Ministério Público

Dez anos da tragédia da Fonte Nova

Em relação à tragédia da Fonte Nova, que completa 10 anos no próximo dia 25 de
novembro, o Ministério Público do Estado da Bahia informa que procuradores e promotores de
Justiça atuaram com afinco, tanto na esfera cível quanto na criminal, com o ajuizamento de ações
civis públicas, oferecimento de denúncia e interposição de recursos relativos ao grave problema,
cabendo ao Poder Judiciário a resposta às demandas. A Instituição lamenta que, transcorrida uma
década do episódio que marcou a história da Bahia, ceifou sete vidas e trouxe sequelas irreversíveis
para diversas famílias, a sociedade não tenha obtido a resposta esperada. A seguir, sintetizamos
todas as demandas propostas pelo Ministério Público em relação à Fonte Nova.

– No âmbito de defesa do consumidor, a Instituição ingressou em janeiro de 2006, mesmo antes do
incidente, com a Ação Civil Pública no 0007886-28.2006.8.05.0001 contra a Superintendência dos
Desportos do Estado da Bahia (Sudesb) e o Esporte Clube Bahia requerendo a interdição do estádio
em caráter liminar em razão das condições precárias. Em 06 de dezembro de 2007, a 5a Promotoria
de Justiça do Consumidor ajuizou a Ação Civil Pública no 0204918-07.2007.8.05.0001 contra a
Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Federação Baiana de Futebol (FBF), Esporte Clube
Bahia e a Polícia Militar do Estado da Bahia por entender que as entidades tinham conhecimento da
situação precária da Fonte Nova e de forma negligente permitiram a realização de partidas de
futebol no estádio. De acordo com a promotora de Justiça Joseane Suzart, autora das duas ações, as
mesmas não foram julgadas pelo Poder Judiciário, mesmo após 25 petições pugnando pelo
julgamento do feito.

– Em agosto de 2009, o Grupo de Atuação Especial de Defesa do Patrimônio Público e da
Moralidade Administrativa (Gepam), por meio dos promotores de Justiça Rita Tourinho e Adriano
Assis, propuseram à Justiça uma Ação Civil Pública por ato de improbidade administrativa contra o
diretor-geral da Sudesb, Raimundo Nonato Tavares da Silva e o engenheiro civil Nilo dos Santos
Júnior, por descaso na condução da solução dos problemas estruturais da Fonte Nova. A ação foi
distribuída para a 5a Vara da Fazenda Pública e aguarda julgamento.

– Já na esfera criminal, o Ministério Público ofereceu denúncia em 04 de março de 2008 contra o
diretor-geral da Sudesb, Raimundo Nonato Tavares da Silva, e o engenheiro civil Nilo dos Santos
Júnior por homicídio culposo e lesão corporal de natureza culposa. A Ação Penal no 0047530-
07.2008.805.0001 foi oferecida pelo então promotor de Justiça Nivaldo Aquino, com base no
inquérito policial no 174/07. Em 14 de agosto de 2009, o juiz substituto da 10a Vara Crime de
Salvador, José Reginaldo Nogueira, absolveu os réus, entendendo pela insuficiência de provas. O
promotor de Justiça Maurício Cerqueira recorreu da decisão em 17 de agosto de 2009. Em 02 de
dezembro de 2009, a Segunda Instância do Ministério Público, por meio da procuradora de Justiça
Elza Maria de Souza, emitiu parecer pelo provimento da apelação interposta e manifestou-se
favoravelmente à reforma da sentença. Entretanto, em julho de 2010, a Segunda Câmara Criminal
do Tribunal de Justiça da Bahia julgou improcedente o recurso e manteve a decisão do juízo deprimeiro grau. Em virtude de que recursos ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal
Federal não se prestam a reexame de provas, restou incabível a interposição de recursos
extraordinários, a teor das Súmulas no 07 do STJ e 279 do STF.

Salvador, 20 de novembro de 2017.

Assessoria de Imprensa

Ministério Público do Estado da Bahia

Fonte: A Tarde

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